Festas e ressacas

Não há caminho sem pedras, nem vida sem obstáculos. Não há subida sem cansaço ou suor. Não existe amor sem desencanto ou alegria que não se acabe. Não há ano, homem, mulher, gay, lésbica, casamento, família, trabalho nem história perfeitos. Defeitos existem em toda parte.

Até aí, nada de novo. Todos sabem que tudo falha vez ou outra: a máquina de lavar, o celular, o computador, o sistema que fica fora do ar ou um cano que vaza e molha onde não deveria molhar. A sorte é que esse tipo de defeito pode ser solucionado por uma assistência técnica especializada.

Mas quem nos conserta? Que assistência é capaz de dar um trato no esquema viciado de um cotidiano que não dá mais para o gasto? Que firma de dedetização pode limpar a área e arejar os cômodos para que comecemos um ano desinfetado? Pois é: quando a gente dá defeito, a coisa complica.

E, para piorar, por um capricho dos tempos, parece que estamos cada vez mais incapazes de tolerar, suportar ou viver com defeitos, sejam os nossos ou os alheios. Por quê? Talvez seja culpa de décadas de tecnologia descartável que nos ensinaram a trocar peças obsoletas. Sem notar, nos acostumamos a substituir e comprar novos aparelhos em vez de consertar os que possuímos.

O problema é que não podemos comprar outra consciência, outro fígado ou outras vontades para substituir os que temos. O jeito, então, é ir emendando. Assim, não espere um ano novo sem defeitos. Mas torça para estar em boa companhia.


Vange Leonel (Revista da Folha – 20/12/2009)

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